quinta-feira, janeiro 04, 2018

No tempo em que for pássaro

No tempo em que for pássaro
21 gramas
dizem que é o peso da alma
voarei para mais alto, devagar
como é próprio dos que viveram madrugadas de saudade
nas esquinas do ontem com o hoje
do hoje com o amanhã
do amanhã com o sempre
até encontrar uma nuvem
nela me abrigar, assim
sem mais nada para me soprar a brisa do norte, ou do sul
também não do oeste nem do leste, lá onde nascem os amanhãs.
Apenas água e o que for de mim, serei também lágrima.
Então gota, esta e aquela e a outra além
chuva e cristal de gelo
mas já rio
serei lago e cisne mas não mar ainda
onda e maré
serei espuma e gaivota
logo oceano, um, dois, três, atlântico, índico e pacífico
a gotícula iluminada pelo sol de inverno
aqui perto e além longe, em todo o lado
serei o elemento efémero e circular de uma esperança renovada
no azul do céu dos dias em que o Sol é amarelo
os campos já verdes.
alguns olharão mais tarde a lua, em busca de sinais de mim,
estarei então naquela estrela do lado de lá de tudo
a brincar às escondidas,
os meus netos talvez soltem uma gargalhada e digam
nem ali, nem além ele tem juízo,
vá lá que não levou a boina basca
bem capaz disso era ele
mas ficaria ridículo
ficaria ridículo na apresentação de credenciais
numa selfie com o São Pedro.